Pesquisador desvenda fatores de protestos políticos



Pesquisador holandês desvenda fatores que cercam protestos políticos

Blent Klandermanns analisou manifestações contra a Guerra do Iraque e conclui que sindicatos conseguem mobilizar mais pessoas que partidos políticos

O que leva as pessoas a se mobilizarem e a lutarem por determinadas causas? As motivações e as formas como são organizados os protestos foram abordadas na conferência A Psicologia Social do protesto: teoria, métodos e evidências, com o professor da Universidade de Amsterdam Blent Klandermanns, nesta quarta-feira, no auditório da Reitoria. Pesquisador de protestos ao redor do mundo, ele diz que uma das ferramentas necessárias para entender os aspectos que envolvem as manifestações é a análise comparada. “A comparação é que permite ver se a motivação é a característica do evento ou do país”, disse.

Em fevereiro de 2003, milhões de pessoas marcham pelas maiores cidades do mundo para protestar contra a iminente Guerra do Iraque. As mobilizações, entretanto, não ocorreram de maneira homogênea e tiveram diferentes razões para acontecer. Klandermanns compara os protestos nos Estados Unidos e em sete países europeus. Uma das diferenças está na organização dos protestos. Norte-americanos e ingleses foram liderados por instituições que pregam a desmilitarização de conflitos e a paz. O movimento sindical foi quem conseguiu mobilizar mais pessoas na Itália e na Espanha. Já na Holanda, os partidos políticos coordenaram o ato contra a invasão.

A efetividade das lideranças foi apontada pelos números dos protestos. Manifestações organizadas por sindicatos na Espanha e na Itália reuniram mais de 2,5 milhões de pessoas, o que representa entre 2,5% e 2,6% da população dos países. Em termos proporcionais, o menor envolvimento foi na Holanda, com cerca de 0,4% dos habitantes integraram-se aos protestos. Isso, segundo Klandermanns, indicaria uma menor capacidade de mobilização por parte dos políticos. Os dados apresentados também aludem a um grande envolvimento das mulheres. Com exceção da Bélgica, elas eram a maioria em nos movimentos das demais nações pesquisadas.

Um fator comum nos manifestos contra a Guerra do Iraque foi a importância dos veículos de comunicação de massa e das relações interpessoais na divulgação dos atos. Cerca de 64% das pessoas tomaram conhecimento dos protestos ou pela mídia ou pela família. As organizações dos eventos alcançaram diretamente apenas 9,8% dos manifestantes. E mais de 50% das pessoas que se envolveram não estão ligadas a essas instituições.

Klandermanns divide a mobilização em dois tipos: a tradicional, iniciada e controlada pelas organizações, e a rizomática, que pode brotar dos cidadãos comuns e que se expande sem limites. “Com as redes sociais, as manifestações ocorrem de maneira mais rápida e não há como controlar”, diz o pesquisador. “Imagine que você tenha 200 amigos no Facebook e divulgue uma notícia. Aí um amigo seu tem que outros 200 amigos transmite a informação. Em poucos minutos, milhares de pessoas podem ser atingidas”.

Para exemplificar a força que a internet imprimiu aos protestos, o pesquisador cita as manifestações ocorridas em 2007 na Holanda contra o aumento da carga horária nas escolas de nível médio. Em 23 de novembro daquele ano, uma manifestação iniciada por um aluno em um site de relacionamento mobilizou 20 mil pessoas. Apenas uma semana depois, um movimento de instituições organizadas conseguiu protestar com um público de número parecido.

SENTIMENTOS – As pressões coletivas têm forte influência sobre os protestos, embora não sejam suficientes para levar todos os interessados a campo. Klandermmans diz que “a etapa mais difícil é a participação”. Entre as razões individuais que podem fazer com que alguém milite ou não, estão as questões emocionais. “A raiva aproxima as pessoas da causa e o medo faz com que elas evitem se envolver”, explica Klandermanns. Segundo ele, os sentimentos são uma variável importante que foi descoberta de maneira tardia. Esperança, diversão e prazer foram outros fatores mencionados que podem facilitar as mobilizações.

Muitos pontos apresentados na conferência não são apontados como conclusivos. O professor holandês segue atrás de descobertas e tem pesquisas em andamento sobre os manifestos de rua e seus efeitos na política, na mídia e entre os especialistas. “A sistematização apresentada foi muito interessante. Achei mais importante a forma que ele divide os atos do que os exemplos em si”, afirma Mateus Fernandes, mestre em Teoria Política. “Vi muitos elementos importantes no trabalho, sobretudo os relacionados a uma análise quantitativa”, diz Jaqueline Gomes de Jesus, que finalizou em 2010 uma tese de doutorado sobre protestos em festas como as paradas do orgulho gay.

Klandermmans, que preside a Sociedade Internacional de Psicologia Política, continua na UnB esta semana, onde ministra minicurso sobre a psicologia social do protesto a alunos de pós-graduação. O Instituto de Ciências Sociais, o Departamento de Sociologia, o Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas são os responsáveis pelos eventos e pela vinda do professor holandês.

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